Blog para escrever o que se quer falar.
Vida, aventuras, amores e dores.
Arquivo, arquivística e arquivologia.
Políticas públicas, desconfortos.
Meu fantasma sem linha e os fantasmas em linha.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Gênero. Pra que te quero?

Quando do enunciado da nova disciplina da pós-graduação, vi que não seria aquela que eu me iria me interessar em potencial: introdução aos estudos de gênero.
            A relação de gênero sempre me foi um tanto complicada: desde a infância tive problemas em separar “coisas de menino” e “coisas de menina”. Quando reprimido com um “isso é coisa de menina!”, eu simplesmente ignorava e seguia na mesma atividade. Minha tia me dera um casal de bonecas que fazia xixi, era colocar água na boca deles que eles faziam xixi. Adorava brincar com as bonecas. Aos sete, oito anos eu jogava futebol descalço na rua em frente a minha casa: éramos oito amigos na rua, todos na mesma faixa etária. Time sem camisa contra os com camisa. Eu era ótimo no futebol: todos me queriam para seus times – me sentia o “macho alfa” da galerinha da rua. Ao mesmo tempo eu ajudava minha madrasta a confeccionar fantasias de carnaval de uma escola de samba lá da cidade: lantejoulas, penas, plumas e paetês sendo colados nas cabeças e suportes de ombros daquelas lindas mulheres negras da bunda grande (com o perdão da palavra) que sambavam loucamente na avenida. Meu sonho infantil era sambar como elas – eu até tentava, mas parecia mais com uma saracura saltitante, do que com um sambista.
            Essas são apenas algumas passagens da minha vida infantil no que diz respeito a comportamentos “naturais” ou “sociais” da relação de gênero que nossa sociedade sustenta. Sem contar que algumas daquelas lindas negras de quadril avantajado tinham barba e voz grossa. Para mim, a convivência com gays e travestis foi se tornando algo natural, a ponto de não vê-los mais como a sociedade os vê. Vejo-os como... eu, como nós. É natural como deve ser.
Na fase da pré-adolescência e início da fase adulta passei a me envolver com arte. Mas diretamente com o teatro. O meio artístico é rodeado de homossexuais (sinceramente, nunca entendi porque tem tanto gay fazendo teatro) e aprendi, mais uma vez, a conviver com eles de forma normal. Afinal, não eram apenas os clientes da minha madrasta, agora eram meus amigos, aqueles com quem eu sairia de noite para beber uma cerveja, para fazer churrasco no pátio da minha casa. Tenho muito orgulho de ter sido criado numa família pouco convencional, aberta e, acima de tudo, respeitosa. Meu pai sempre me chamou atenção para algumas atitudes bonitas, como por exemplo, admirar a beleza daquele “cara bonitão” que apareceu na tevê, ou, de cumprimentar outro homem com um beijo no rosto – cabe salientar que o meu pai é aquele homem com H maiúsculo: joga futebol todo sábado, vai pescar com os amigos, faz churrasco e carneia a vaca (estereótipo de machão mesmo). Mas mesmo sendo ‘H’omem ele tem a mente aberta e o coração puro, nesse sentido. Ele sempre perguntava, com carinho, daquele meu amigo negro, bonito, “aquele veadinho divertido”, dizia ele. Mas isso tudo era tão natural e num tom agradável de brincadeira.
            Hoje, sento na sala de aula. Escuto a leitura sintética de textos sobre gênero, onde colocam a mulher num lugar social ridículo (aquela que serve para procriar e cuidar da casa) e o homem num lugar de destaque, no pedestal da organização social. Questiono-me se esse pensamento era somente nos séculos XVI a XIX. Vejo que não. Esse pensamento retrógrado e até primitivo permanece até hoje na mentalidade reprimida de nossa sociedade. Felizmente, tive uma criação e uma construção de pensamento que foge um pouco desse “padrão social”: aquele padrão de pessoas que se admira/se espanta ao ver um travesti passando na rua, ao seu lado; aquele padrão social de pessoas que se horroriza ao ver um casal gay trocando afetos; aquele padrão social que fere a liberdade, a minha liberdade.

            Não quero falar de gênero. Quero esconder de mim mesmo fatos sociais que não precisariam existir, a meu ver. Quero fingir que esqueci que existem. Se estou fugindo da realidade social em que vivo? Pode ser. Mas não estou preocupado com isso. Estou preocupado em poder viver livre, sem rótulos, sem ser anormal, sem precisar controlar minhas ações de afeto e carinho. Quero viver livre; e a sociedade “natural e padrão” que se acostume com isso.


Nenhum comentário:

Postar um comentário