Quando do enunciado da nova disciplina
da pós-graduação, vi que não seria aquela que eu me iria me interessar em potencial: introdução
aos estudos de gênero.
A
relação de gênero sempre me foi um tanto complicada: desde a infância tive
problemas em separar “coisas de menino” e “coisas de menina”. Quando reprimido
com um “isso é coisa de menina!”, eu simplesmente ignorava e seguia na mesma
atividade. Minha tia me dera um casal de bonecas que fazia xixi, era colocar
água na boca deles que eles faziam xixi. Adorava brincar com as bonecas. Aos
sete, oito anos eu jogava futebol descalço na rua em frente a minha casa:
éramos oito amigos na rua, todos na mesma faixa etária. Time sem camisa contra
os com camisa. Eu era ótimo no futebol: todos me queriam para seus times – me
sentia o “macho alfa” da galerinha da rua. Ao mesmo tempo eu ajudava minha
madrasta a confeccionar fantasias de carnaval de uma escola de samba lá da
cidade: lantejoulas, penas, plumas e paetês sendo colados nas cabeças e
suportes de ombros daquelas lindas mulheres negras da bunda grande (com o
perdão da palavra) que sambavam loucamente na avenida. Meu sonho infantil era
sambar como elas – eu até tentava, mas parecia mais com uma saracura
saltitante, do que com um sambista.
Essas
são apenas algumas passagens da minha vida infantil no que diz respeito a
comportamentos “naturais” ou “sociais” da relação de gênero que nossa sociedade
sustenta. Sem contar que algumas daquelas lindas negras de quadril avantajado
tinham barba e voz grossa. Para mim, a convivência com gays e travestis foi se
tornando algo natural, a ponto de não vê-los mais como a sociedade os vê. Vejo-os
como... eu, como nós. É natural como deve ser.
Na fase da pré-adolescência
e início da fase adulta passei a me envolver com arte. Mas diretamente com o
teatro. O meio artístico é rodeado de homossexuais (sinceramente, nunca entendi
porque tem tanto gay fazendo teatro) e aprendi, mais uma vez, a conviver com eles
de forma normal. Afinal, não eram apenas os clientes da minha madrasta, agora
eram meus amigos, aqueles com quem eu sairia de noite para beber uma cerveja,
para fazer churrasco no pátio da minha casa. Tenho muito orgulho de ter sido
criado numa família pouco convencional, aberta e, acima de tudo, respeitosa.
Meu pai sempre me chamou atenção para algumas atitudes bonitas, como por
exemplo, admirar a beleza daquele “cara bonitão” que apareceu na tevê, ou, de
cumprimentar outro homem com um beijo no rosto – cabe salientar que o meu pai é
aquele homem com H maiúsculo: joga futebol todo sábado, vai pescar com os
amigos, faz churrasco e carneia a vaca (estereótipo de machão mesmo). Mas mesmo
sendo ‘H’omem ele tem a mente aberta e o coração puro, nesse sentido. Ele
sempre perguntava, com carinho, daquele meu amigo negro, bonito, “aquele
veadinho divertido”, dizia ele. Mas isso tudo era tão natural e num tom
agradável de brincadeira.
Hoje,
sento na sala de aula. Escuto a leitura sintética de textos sobre gênero, onde
colocam a mulher num lugar social ridículo (aquela que serve para procriar e
cuidar da casa) e o homem num lugar de destaque, no pedestal da organização
social. Questiono-me se esse pensamento era somente nos séculos XVI a XIX. Vejo
que não. Esse pensamento retrógrado e até primitivo permanece até hoje na
mentalidade reprimida de nossa sociedade. Felizmente, tive uma criação e uma
construção de pensamento que foge um pouco desse “padrão social”: aquele padrão
de pessoas que se admira/se espanta ao ver um travesti passando na rua, ao seu
lado; aquele padrão social de pessoas que se horroriza ao ver um casal gay
trocando afetos; aquele padrão social que fere a liberdade, a minha liberdade.
Não
quero falar de gênero. Quero esconder de mim mesmo fatos sociais que não
precisariam existir, a meu ver. Quero fingir que esqueci que existem. Se estou
fugindo da realidade social em que vivo? Pode ser. Mas não estou preocupado com
isso. Estou preocupado em poder viver livre, sem rótulos, sem ser anormal, sem
precisar controlar minhas ações de afeto e carinho. Quero viver livre; e a
sociedade “natural e padrão” que se acostume com isso.

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