Blog para escrever o que se quer falar.
Vida, aventuras, amores e dores.
Arquivo, arquivística e arquivologia.
Políticas públicas, desconfortos.
Meu fantasma sem linha e os fantasmas em linha.
Mostrando postagens com marcador Patrimônio cultural. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Patrimônio cultural. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de maio de 2014

ÍNDIO É AQUELE QUE VIVE NO MATO E USA PENA NA CABEÇA (?)

Jonas Ferrigolo Melo
Arquivista pela Universidade Federal de Santa Maria
Pós-graduando em História, Patrimônio Cultural e Identidades
Universidade Luterana do Brasil / Canoas - RS
Disciplina Cultura indígena brasileira
Julho de 2013


            Em julho de 2012 tive a experiência mais valorosa de minha vida adulta: uma viagem, sozinho, de 30 dias para o norte do Brasil. Foram dois estados, Amazonas e Pará, cerca de 20 cidades. Uma experiência daquelas que se recorda pelo resto da vida, daquelas em que os paradigmas mudam, onde reabilitamos nossas energias e nos sentimos vivos. Mas eu matei os índios.
            Foi uma programação turística, onde o barqueiro cobra uma taxa dos turistas e os leva para um passeio rio Amazonas adentro. Passamos por vitória régia, hotéis aquáticos, nadamos com botos, visitamos uma casa onde vivem uma jiboia de oito metros, um jacaré e um bicho-preguiça, e fomos numa aldeia indígena: um ambiente inóspito, bem como vemos nos filmes. Ocas lindamente construídas, grandes áreas abertas de barro vermelho. Índias com os seios amostra e com uma criança indígena segurada por um dos braços, encaixada na cintura. Moças jovens indígenas fazendo artesanato e os homens com arcos e flechas e sungas da Nike. Sungas da Nike. Nike. Como pode um índio usar sunga preta da Nike? Eles fizeram demonstração de suas danças, de sua cultura e instrumentos musicais. Os turistas (inclusive eu) dançaram com os índios e tudo era motivo para fotos – um grito do índio era fotografado. No final, éramos “convidados” a contribuir com dinheiro. Foi tão teatral que me pareceu uma fábula. E foi exatamente essa a sensação que eu tive: senti-me uma criança de oito anos lendo um daqueles livros infantis cheios de grandes aventuras – quando se tem oito anos. A visita foi pra mim como uma dramaticidade, tudo falso, raso. Encarei como um comércio da vida amazônica. Um teatrinho barato para “gringo ver”. Saí extremamente decepcionado. Um dia inteiro sendo apresentado a uma realidade falsa da vida na floresta amazônica.
Já passou um ano dessa experiência e até então, minha opinião seguia sendo essa. No entanto, no primeiro dia de aula da disciplina Cultura indígena brasileira, da especialização em Patrimônio Cultura, meu paradigma mudou: será mesmo que índio é aquele que vive no mato com pena na cabeça? Caçando, pescando e vivendo de forma primitiva e isolado da civilização? Essa foi uma pergunta que veio para mim como um soco no estômago. Explico: não precisei responder para mim mesmo com palavras e contextualização, bastou que eu passasse a vê-los como pessoas humanas como eu, meus amigos, família e todas as pessoas que passam diariamente por mim. Os indígenas, assim como nós (ditos civilizados), precisam evoluir com o que lhes é apresentado. Seja através do artesanato, da ciência ou da teatralização de sua cultura. Inicialmente entendi como se aquela tribo estivesse vendendo sua cultura para os gringos. Fazendo show como animais exóticos que os turistas querem ver. E isso me deixou extremamente decepcionado. Achei que passaríamos o dia na aldeia como visitantes. Vendo a realidade da vida na comunidade. E não que iríamos assistir a um show. Um ano depois meu paradigma foi reorganizado.
Hoje, vejo essa situação como a alternativa que a aldeia encontrou para sobreviver, tendo em vista que a floresta não fornece mais os recursos necessários para sua auto-sobrevivência. Com o dinheiro que eles arrecadam de seu trabalho com os turistas, podem compram seus alimentos na cidade. Não precisam caçar e pescar para se alimentar. Eles vão ao mercado como eu e grande parte da população mundial. E agora, a pergunta hipotética que me faço é: porque não? Qual o problema nisso? Porque eu achava que o índio é aquele do mato, com pena na cabeça que caça e pesca, que cultiva seu alimento? Eles aprenderam isso conosco, com o povo civilizado. A dificuldade de sobreviver da floresta, a chegada da tecnologia e de modos de pensar que vieram com os europeus há anos atrás proporcionaram que essas alternativas fossem viáveis. Porque pescar com flechas se temos anzol? Porque pescar se temos o peixe congelado no mercado?

O índio também pode, assim como eu e todos, desenvolver seus métodos. Eles podem vestir roupas e morar na cidade e ainda assim continuar sendo índios. Eles podem ir à universidade e serem juízes, médicos, professores e ter qualquer outra profissão e ainda assim continuar sendo índio. E podem usar sungas da Nike.

Foto: Jonas Ferrigolo | Manaus - AMAZONAS

terça-feira, 29 de abril de 2014

Gênero. Pra que te quero?

Quando do enunciado da nova disciplina da pós-graduação, vi que não seria aquela que eu me iria me interessar em potencial: introdução aos estudos de gênero.
            A relação de gênero sempre me foi um tanto complicada: desde a infância tive problemas em separar “coisas de menino” e “coisas de menina”. Quando reprimido com um “isso é coisa de menina!”, eu simplesmente ignorava e seguia na mesma atividade. Minha tia me dera um casal de bonecas que fazia xixi, era colocar água na boca deles que eles faziam xixi. Adorava brincar com as bonecas. Aos sete, oito anos eu jogava futebol descalço na rua em frente a minha casa: éramos oito amigos na rua, todos na mesma faixa etária. Time sem camisa contra os com camisa. Eu era ótimo no futebol: todos me queriam para seus times – me sentia o “macho alfa” da galerinha da rua. Ao mesmo tempo eu ajudava minha madrasta a confeccionar fantasias de carnaval de uma escola de samba lá da cidade: lantejoulas, penas, plumas e paetês sendo colados nas cabeças e suportes de ombros daquelas lindas mulheres negras da bunda grande (com o perdão da palavra) que sambavam loucamente na avenida. Meu sonho infantil era sambar como elas – eu até tentava, mas parecia mais com uma saracura saltitante, do que com um sambista.
            Essas são apenas algumas passagens da minha vida infantil no que diz respeito a comportamentos “naturais” ou “sociais” da relação de gênero que nossa sociedade sustenta. Sem contar que algumas daquelas lindas negras de quadril avantajado tinham barba e voz grossa. Para mim, a convivência com gays e travestis foi se tornando algo natural, a ponto de não vê-los mais como a sociedade os vê. Vejo-os como... eu, como nós. É natural como deve ser.
Na fase da pré-adolescência e início da fase adulta passei a me envolver com arte. Mas diretamente com o teatro. O meio artístico é rodeado de homossexuais (sinceramente, nunca entendi porque tem tanto gay fazendo teatro) e aprendi, mais uma vez, a conviver com eles de forma normal. Afinal, não eram apenas os clientes da minha madrasta, agora eram meus amigos, aqueles com quem eu sairia de noite para beber uma cerveja, para fazer churrasco no pátio da minha casa. Tenho muito orgulho de ter sido criado numa família pouco convencional, aberta e, acima de tudo, respeitosa. Meu pai sempre me chamou atenção para algumas atitudes bonitas, como por exemplo, admirar a beleza daquele “cara bonitão” que apareceu na tevê, ou, de cumprimentar outro homem com um beijo no rosto – cabe salientar que o meu pai é aquele homem com H maiúsculo: joga futebol todo sábado, vai pescar com os amigos, faz churrasco e carneia a vaca (estereótipo de machão mesmo). Mas mesmo sendo ‘H’omem ele tem a mente aberta e o coração puro, nesse sentido. Ele sempre perguntava, com carinho, daquele meu amigo negro, bonito, “aquele veadinho divertido”, dizia ele. Mas isso tudo era tão natural e num tom agradável de brincadeira.
            Hoje, sento na sala de aula. Escuto a leitura sintética de textos sobre gênero, onde colocam a mulher num lugar social ridículo (aquela que serve para procriar e cuidar da casa) e o homem num lugar de destaque, no pedestal da organização social. Questiono-me se esse pensamento era somente nos séculos XVI a XIX. Vejo que não. Esse pensamento retrógrado e até primitivo permanece até hoje na mentalidade reprimida de nossa sociedade. Felizmente, tive uma criação e uma construção de pensamento que foge um pouco desse “padrão social”: aquele padrão de pessoas que se admira/se espanta ao ver um travesti passando na rua, ao seu lado; aquele padrão social de pessoas que se horroriza ao ver um casal gay trocando afetos; aquele padrão social que fere a liberdade, a minha liberdade.

            Não quero falar de gênero. Quero esconder de mim mesmo fatos sociais que não precisariam existir, a meu ver. Quero fingir que esqueci que existem. Se estou fugindo da realidade social em que vivo? Pode ser. Mas não estou preocupado com isso. Estou preocupado em poder viver livre, sem rótulos, sem ser anormal, sem precisar controlar minhas ações de afeto e carinho. Quero viver livre; e a sociedade “natural e padrão” que se acostume com isso.