Jonas Ferrigolo Melo
Arquivista pela
Universidade Federal de Santa Maria
Pós-graduando em História,
Patrimônio Cultural e Identidades
Universidade Luterana do
Brasil / Canoas - RS
Disciplina Cultura indígena
brasileira
Julho de 2013
Em julho de 2012 tive a experiência
mais valorosa de minha vida adulta: uma viagem, sozinho, de 30 dias para o
norte do Brasil. Foram dois estados, Amazonas e Pará, cerca de 20 cidades. Uma
experiência daquelas que se recorda pelo resto da vida, daquelas em que os
paradigmas mudam, onde reabilitamos nossas energias e nos sentimos vivos. Mas
eu matei os índios.
Foi uma programação turística, onde
o barqueiro cobra uma taxa dos turistas e os leva para um passeio rio Amazonas
adentro. Passamos por vitória régia, hotéis aquáticos, nadamos com botos,
visitamos uma casa onde vivem uma jiboia de oito metros, um jacaré e um
bicho-preguiça, e fomos numa aldeia indígena: um ambiente inóspito, bem como
vemos nos filmes. Ocas lindamente construídas, grandes áreas abertas de barro
vermelho. Índias com os seios amostra e com uma criança indígena segurada por
um dos braços, encaixada na cintura. Moças jovens indígenas fazendo artesanato
e os homens com arcos e flechas e sungas da Nike.
Sungas da Nike. Nike. Como pode um índio usar sunga preta da Nike? Eles fizeram demonstração de suas danças, de sua cultura e
instrumentos musicais. Os turistas (inclusive eu) dançaram com os índios e tudo
era motivo para fotos – um grito do índio era fotografado. No final, éramos
“convidados” a contribuir com dinheiro. Foi tão teatral que me pareceu uma fábula.
E foi exatamente essa a sensação que eu tive: senti-me uma criança de oito anos
lendo um daqueles livros infantis cheios de grandes aventuras – quando se tem
oito anos. A visita foi pra mim como uma dramaticidade, tudo falso, raso.
Encarei como um comércio da vida amazônica. Um teatrinho barato para “gringo
ver”. Saí extremamente decepcionado. Um dia inteiro sendo apresentado a uma
realidade falsa da vida na floresta amazônica.
Já
passou um ano dessa experiência e até então, minha opinião seguia sendo essa. No
entanto, no primeiro dia de aula da disciplina Cultura indígena brasileira, da especialização em Patrimônio
Cultura, meu paradigma mudou: será mesmo que índio é aquele que vive no mato
com pena na cabeça? Caçando, pescando e vivendo de forma primitiva e isolado da
civilização? Essa foi uma pergunta que veio para mim como um soco no estômago.
Explico: não precisei responder para mim mesmo com palavras e contextualização,
bastou que eu passasse a vê-los como pessoas humanas como eu, meus amigos,
família e todas as pessoas que passam diariamente por mim. Os indígenas, assim
como nós (ditos civilizados), precisam evoluir com o que lhes é apresentado.
Seja através do artesanato, da ciência ou da teatralização de sua cultura.
Inicialmente entendi como se aquela tribo estivesse vendendo sua cultura para
os gringos. Fazendo show como animais exóticos que os turistas querem ver. E
isso me deixou extremamente decepcionado. Achei que passaríamos o dia na aldeia
como visitantes. Vendo a realidade da vida na comunidade. E não que iríamos
assistir a um show. Um ano depois meu paradigma foi reorganizado.
Hoje,
vejo essa situação como a alternativa que a aldeia encontrou para sobreviver,
tendo em vista que a floresta não fornece mais os recursos necessários para sua
auto-sobrevivência. Com o dinheiro que eles arrecadam de seu trabalho com os
turistas, podem compram seus alimentos na cidade. Não precisam caçar e pescar
para se alimentar. Eles vão ao mercado como eu e grande parte da população
mundial. E agora, a pergunta hipotética que me faço é: porque não? Qual o
problema nisso? Porque eu achava que o índio é aquele do mato, com pena na
cabeça que caça e pesca, que cultiva seu alimento? Eles aprenderam isso
conosco, com o povo civilizado. A dificuldade de sobreviver da floresta, a
chegada da tecnologia e de modos de pensar que vieram com os europeus há anos
atrás proporcionaram que essas alternativas fossem viáveis. Porque pescar com
flechas se temos anzol? Porque pescar se temos o peixe congelado no mercado?
O
índio também pode, assim como eu e todos, desenvolver seus métodos. Eles podem
vestir roupas e morar na cidade e ainda assim continuar sendo índios. Eles
podem ir à universidade e serem juízes, médicos, professores e ter qualquer
outra profissão e ainda assim continuar sendo índio. E podem usar sungas da Nike.
| Foto: Jonas Ferrigolo | Manaus - AMAZONAS |
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