Nos primeiros momentos de Bienal tive que atualizar o
Moodle, descrever meu perfil. Os colegas estavam colocando quem eram, o que
faziam e o que tinham feito. Eu não queria colocar isso e me veio uma frase que
utilizei no espaço de minha descrição: “Seria feio dizer que vim buscar um
amor?”. E esse foi meu objetivo enquanto parte deste evento. E acabei descobrindo
o que é o amor e que eu nunca antes havia amado verdadeiramente. Descobri
vários amores: pela arte, pela astrologia e educação, pelas pessoas que conheci
e por um outro alguém.
Foram
momentos de muita crise identitária: não sabia porque eu estava inserido
naquele contexto, não sabia a razão de estar assistindo aquelas palestras e
vivendo com aquelas pessoas, mas me sentia tão bem, mas tão bem que resolvi me
dedicar mais, precisava de mais tempo para me envolver com a Bienal e então
tranquei a matrícula da faculdade. Sobraria mais tempo e, talvez, eu pudesse
compreender melhor as razões de estar ali. Deu certo. Compreendi que eu queria
companhia, queria gente boa, queria conviver com aquelas criaturas lindas, que,
siiim... eram parecidas comigo, faziam parte da mesma vaibe que eu tanto busco e procuro encarnar na minha vida. Descobri
que ali tinha outros do mesmo clã que o meu. Agente falava de arte, agente
falava de meio ambiente e de experiências vividas. Agente falava de vida da
forma mais esquisita possível. Agente falava de arte onde a arte, nem sequer,
existia. Ao mesmo tempo em que era enlouquecedor e desalinhado, era norteador:
a partir daquela desconstrução passei a construir outros pensamentos: coisas
nunca antes pensadas. Isso foi criando em mim uma admiração pela arte e pela
fala das pessoas, uma abertura de mente e de coração que me permitiu amar...
simplesmente me apaixonar por aquilo que eu não conhecia. Um laço que se
construiria, normalmente, com longos anos de convivência, e não com singelos
poucos meses. Mas, enfim, aconteceu. E eu estava ali inteiro. De corpo e alma,
literalmente.
Até que
começou o processo de trabalho: escolhe espaço, arruma horário, “onde você vai
ficar fulano?”, “Há, queria ficar no mesmo espaço que você”... E assim escolhi
a Usina do Gasômetro, turno da noite. Q-U-E P-O-V-O L-I-N-D-O (ta, acho que
diria isso em qualquer espaço que eu ficasse, mas não quero ser racional
agora). POVO AMADO, DIVERTIDO, COM CORAÇÃO LINDO. Amei tê-los conhecido. E isso
tudo foi visto no primeiro encontro, ali na praça da Matriz, na escadaria em
frente ao centenário monumento de Júlio de Castilhos.
E,
então, no tempo em que convivemos na Usina muito se viu, muito se falou, longas
conversas sobre arte, dores e amores (Caetano disse “porque rimar dor e amor?”
Ah Caetano, você sabe). Aquele tipo de coisa que agente não lembra em potencial
e, mesmo que lembrasse, não são conversas que agente consegue/pode descrever.
São aquelas que agente lembra somente pelo coração. Somente pela experiência de
tê-la vivido. Vou falar da minha experiência. E somente de algumas. Mas antes
de descrevê-las preciso falar de uma situação que marcou minha passagem pela
Bienal: o tal, maldito, jantar à luz de velas no Margs. Para isso, vou me
apropriar de trechos da carta que escrevi à Fundação Bienal relatando o
ocorrido:
“Diante da exposição das fotos do jantar no Facebook do MARGS, eu e
demais colegas, fizemos alguns comentários educados frente ao ocorrido. Cabe
salientar, que nunca fui contra o acontecimento do jantar e a função que ele
tem. O que me perturbou foram às condições com que ele foi concebido (dentro de
um museu de arte, junto com obras importantíssimas e únicas). Para mim, um
estudante de patrimônio cultural, é inaceitável correr um risco como esse, e
foi nesse ponto que sempre me manifestei contra. No meu comentário eu disse
basicamente o seguinte: “Num lugar onde não se pode entrar com mochila, com
carteira, cartão de crédito e documentos pessoais, pois todos devem ficar na
portaria junto com a bolsa, num lugar onde não se pode trabalhar com uma
garrafinha de água, me parece um contra-senso acontecer um jantar a luz de
velas. Não?”. Bom, esse comentário e todos os demais foram apagados e todos
foram bloqueados da rede social do MARGS (uma instituição pública, minha, sua e
todos nós).
Como se não bastasse, no dia 16 de
outubro de 2013, às 11:40, atendo uma ligação telefônica no meu trabalho. Para
minha surpresa (ou não) era o diretor do museu solicitando uma conversa com
minha chefe imediata. Transferi a ligação, mas antes dela atender o telefonema,
adiantei que o assunto poderia ser o comentário que eu tinha feito no Facebook
da instituição. Ela atendeu ao telefone e depois da conversa contou-me: Ele
disse que tinha um funcionário do IEL que estava fazendo comentários
desnecessários nas redes sociais do MARGS e que não era política do MARGS que
seus funcionários fizessem críticas a instituições do Estado, e solicitou que
ela pedisse que eu não fizesse mais isso. Não é política do MARGS criticar
instituições, também não é política do IEL e nem de qualquer outra instituição
criticar ações de outrem, mas que era uma posição pessoal, no Facebook pessoal
de um funcionário e que este tem direito de se manifestar como e quando quiser
e que, inclusive, era direito previsto pelo estatuto do servidor público (cito
parágrafo II, Art. 178 – Grifos meus - Ao servidor é proibido:
I - referir-se, de modo depreciativo, em informação, parecer ou despacho, às
autoridades e a atos da administração pública estadual, podendo, porém,
em trabalho assinado, criticá-los do ponto de
vista doutrinário ou da organização do serviço).
Trata-se de uma perseguição. Juridicamente, falamos em “assédio moral”:
tiveram a capacidade boçal de pesquisar a minha rede social e encontrar o local
do meu trabalho, o telefone do meu trabalho e ligar para minha chefia propondo
uma “solução” para abafar a situação ridícula, que ora foi proposta e conivente
de duas instituições (MARGS e Fundação Bienal) que são envolvidas com arte e
patrimônio em seu trabalho fim. Não é de sentir a dor de um soco no estômago?
Procuro ser o mais sensato possível no que faço. Sempre busquei a perfeição
nas minhas atitudes, ações e falas, mas com o tempo, dei-me conta que não
existe perfeição. A perfeição é uma utopia que temos que acreditar para
tentar/conseguir fazer o melhor possível em todas nossas ações. Por isso,
dou-me a ousadia de sugerir, especialmente à Fundação Bienal, que se retrate
pelo ocorrido. Que não deixe tudo como está e simplesmente tentem esconder o
assunto. Sugiro que tragam ao público uma retratação, dizendo, simplesmente,
que entendem as manifestações e que reconhecem o erro que causaram, pedindo
desculpas aos cidadãos por terem corrido o risco de depreciar o patrimônio
público.
A Bienal marcou minha vida desde os primeiros meses de formação. Vivi
coisas que não tinha vivido nos meus poucos 25 anos. Usei partes de meu cérebro
que nunca antes tinham sido utilizadas. Estou passando por situações
delicadíssimas (boas, ótimas) com a inserção da Bienal em minha vida. A Bienal
marcou uma fase e resolvi marcá-la em meu corpo com uma tatuagem representativa
(falo isso para veres que não é da “boca para fora”)”.
E a carta segue...
*** ***
Bom...
tudo bem que eu seja sensato, na maioria das vezes, mas nessa carta a sensatez
ficou de lado: estava enfurecido com a situação, quase cuspia fogo pela boca
(desta vez sem usar querosene). Isso rendeu algumas sessões de terapia. Para
ilustrar algumas passagens da carta compartilho um texto que fiz para meu blog
e uma imagem:
E,
então, começou toda aquela função de aula, palestra, chá de cadeira, opiniões e
informações sendo construídas e destruídas: uma teia de conhecimentos sendo mal
digerida. Surgindo uma relação de amor e ódio com tudo que ali estava sendo
exposto. Soco no estômago: aquele que chega a doer a parte interna das
costelas, sabe? Um soco com aquela informação que era tão cotidiana, mas que
foi concretizada em palavras. E assim foi pelos meses que se sucederam as
aulas. Bom, o importante não foi isso. O mais importante foi pegar o elevador e
descer ao térreo: aquele elevador ficou tão belo, tão leve, tão cheiroso... em
câmera lenta: como eram lindos aqueles olhos pequenos e verdes, como eram
lindos aqueles braços esguios, como era linda aquela região lateral dos olhos,
próximo do cabelo, sabe? Entre olhos via aquele conjunto de tanta beleza,
chegava a ver seu interior: como era querido e inteligente, fugaz e seu olhar
demonstrava admiração recíproca, um olhar também de entre olho que me analisava
e buscava compreender-me e procurava a palavra certa para quebrar o silêncio e
fazer aquele elevador acelerar, ou, simplesmente, voltar à sua velocidade
normal. Até que a análise e o silêncio foram quebrados pelo “oi”. Foram longos
e intensos dois segundos de silêncio.
Agora vamos falar das minhas experiências enquanto mediador.
Não sei
quantas mediações eu fiz, mas como diziam os supers: “haverá mediações em que
vamos nos sentir os melhores do mundo, e outras que vamos nos sentir um lixo”.
Profetas. Mas quero relatar somente três delas, óbvio que foram experiências
positivas: a mediação do, popularmente intitulado, Riozinho de gente, em alusão ao corte Rio de Gente, organizado pela equipe de mediadores durante a
Bienal; a mediação de olhos vendados, como alternativa para chamar a atenção dos
alunos; e, por fim, a mediação de cadeira de rodas, como alternativa de
incentivar os colegas mediadores a inovar, mesmo que na reta final.
RIOZINHO DE GENTE
Uma turma de 17 crianças, de 7 a 9 anos: eles apontaram
na porta da Usina, eu olhei pra eles, parei e disse pra mim mesmo: “eu quero
mediá-los”. E, como uma transmissão de pensamento o supervisor daquele horário
me perguntou: “Jonas, pode mediá-los?”. “Claaaaro, vou trabalhar com música”.
Cabe ressaltar que eu queria trabalhar com música, mas
não sabia o que fazer, exatamente. Não tinha formulado uma ideia e não tinha
conseguido encaixar a música no contexto das obras. Instintivamente, subimos
para o segundo andar da Usina (um pequeno já estava agarrado na minha mão) e
fomos para minha obra preferida, Quebreira,
do Daniel Stegmann. Escutamos o som da obra e eles me disseram que era o som do
fundo do mar. #PRONTO: mediação musical iniciando. Passamos por todas as obras
do segundo andar e pedi que eles tentassem identificar aquela estrutura como
parte do fundo do mar: “o que isso pode ser no fundo do mar?” Os lindos viram
uma baleia, tartarugas e arraias, viram corais e túneis escuros, viram a
casinha dos peixes (ai, que lindo). Transformaram o segundo andar num lindo
oceano.
Nessa
parte pedi ajuda aos professores enquanto eu buscaria os instrumentos. Quando
voltei reafirmei que aquele lugar onde estávamos era o fundo do mar. Mas se
estamos no fundo do mar, o que somos? “Somos peixes”, “Eu sou um tubarão”. E
então, começamos a pesquisar o som daqueles peixes: mostrei o som dos
instrumentos sem falar nada; pegava o instrumento e tocava. Os olhinhos bem
abertos e atentos; eu, com uma cara de bobão (encantado com o que eu estava
vendo e fazendo). Pedi a um dos meninos, o tubarão, que pegasse um instrumento
e nos mostrasse qual era o som que o tubarão dele fazia, e assim cada um dos
peixinhos foi brincando com os instrumentos e descobrindo qual era o som do seu
peixe. Todos instrumentados e com seus sons escolhidos passamos para fase de
criação no nosso grande cardume de peixes. Nessa parte da mediação/brincadeira/criação
poética pedi que um de cada vez mostrasse o som de seu peixe aos colegas, e
estes, por sua vez, descrevessem como era aquele peixe conforme o som que ele
emitia: Que cor ele tem? Qual o tamanho? Com ele é? Eram peixes incrivelmente
coloridos e diferentes: tinha vermelho, laranja e verde, cinza com azul, olhos
saltados, olhos em antenas, com lanterna na cabeça, gordos e magrelos. Peixes
para todo gosto. E, então, começamos a nadar pelo nosso lindo oceano, emitindo
nossos sons, os fazendo ecoar por toda Usina, chamando atenção de todos que lá
estavam. Foi uma louca brincadeira musical. Passamos por um túnel muito escuro,
uma caverna onde os peixes mais perigosos ficavam a espera de sua vítima (as
escadarias para o quarto andar), mas teríamos que passar por esse túnel se
quiséssemos chegar na parte mais linda do oceano (o terraço). “Vocês querem
passar?”, “Siiim”, em coro. Fomos até lá fazendo nosso Riozinho de gente, nome da mediação, carinhosamente apelidado pelo
Rafa, o super da Usina.
No fim da mediação recebi um abraço muito fofo, um agradecimento
dos professores de encher a alma. Minha bochecha estava doendo de tanto rir:
fiquei uma hora e meia sorrindo. Eles foram embora e eu fiquei com essa
experiência de vida. Fiquei com a lição que somos capazes de nos relacionar com
todos, apenas precisamos ser criativos e estar com o coração aberto. Mediar
crianças, sem dúvida, foi meu principal desafio enquanto mediador. E foi
vencido.
Aqui tem um vídeo da mediação que o querido amigo e mediador, Leonardo Barreiro (Leo) fez com muito carinho: http://migre.me/hRpJO
Aqui tem um vídeo da mediação que o querido amigo e mediador, Leonardo Barreiro (Leo) fez com muito carinho: http://migre.me/hRpJO
MEDIAÇÃO DE OLHOS VENDADOS
Chegou a turma que estava agendada para que eu fizesse a mediação. O Rafa, supervisor da Usina naquele turno, foi fazer o acolhimento como sempre fez e por vezes teve que interromper sua fala para pedir atenção e respeito por parte dos alunos, que estavam inquietos. Era uma turma de ensino médio, primeiro ano. Vendo a dificuldade que o Rafa estava tendo para recepcionar aquela turma, fiquei imaginando como seria minha mediação, pensei até em não mediar, deixá-los passeando pelos corredores e levar para o terraço. Passaram vários pensamentos por mim e até que um deles parou na minha mente e comecei a elaborar o “plano maquiavélico” (lembrando da Disney).
Comecei dando boas-vindas sem sorriso no rosto, voz seca,
palavras duras e breves, tentando mostrar uma postura séria para eles. Depois,
fiquei por uns 10 segundos somente olhando para o rosto deles, sem dizer nada:
o silêncio e a atenção em mim tomou conta daqueles adolescentes. Até que falei:
“Vocês querem uma visita com emoção ou sem emoção?”. Uma menina muito
espertinha (para não dizer assanhada) disse que queria com emoção, e todos
concordaram. Disse então, ainda naquele tom seco e sério, “Vamos para o
quarto!”. “Uhhuuu...”, gritaram. Mas eu me referia ao quarto andar!
Lá no terraço sentamos em círculo e conversei sério com
eles, disse que ali não era uma escola e que tinham liberdade para opinar,
conversar, falar, gritar, chorar, só não podia tirar a roupa, o resto estava
liberado, desde que participassem. Deixei claro que o principal era a participação
deles, e que se isso não acontecesse a vinda teria sido em vão e o meu tempo
estaria sendo disperdissado com eles. Aterrorizei. Deixei toda responsabilidade
da visita neles. Deu super certo! (será que vou ser demitido depois de
lerem esses relatos?).
Pedi dois voluntários. Quase se bateram para decidir
quais seriam os dois. Dividi o grupo em duas parte. Cada grupo com oito pessoas.
Cada voluntário em um grupo. O voluntário teria que vendar os olhos com uma
tarja preta, que busquei na sala dos mediadores enquanto eles subiam para o
terraço, e os demais colegas teriam que mediar as obras do segundo andar para
aquele vendado. Foi muito legal!!! Eles mediaram!!! Passamos por todas obras do
segundo andar da Usina e os dois grupos descreviam a obra para o vendado.
Depois de descrita nos reuníamos e eu mediava a obra de uma maneira bem breve e
informativa. E assim foi por cinco trabalhos. Nesse momento, aquele mediador
sério lá do início já tinha ficado para trás. Eles estavam super a vontade e eu
também. A professora participou de um dos grupos e parecia uma adolescente
junto deles. Era o time da “Jéssica tá loca” e o outro não lembro o nome. No fim,
fomos para o primeiro andar, próximos a obra do Eduardo Navarro. Fiz a proposta
para que as duas meninas vendadas escolhessem uma das obras e fizessem um
desenho dela conforme a descrição que receberam de seus colegas. Enquanto elas
faziam os desenhos, os demais colegas foram mediados nas obras da galeria dos
arcos.
Para finalizar, levei as duas meninas para ver as obras,
desta vez com os olhos, para comparar seus desenhos e relatar como imaginavam que
era cada um dos trabalhos.
Nesta mediação, me senti um educador: aquele que sabe
jogar com a turma que tem, que sabe se adaptar a realidade social daqueles jovens
e ao interesse deles. São adolescentes de 14, 15, 16 anos, querem namorar e
flertar e não estão se importando com o babaca que quer fazê-los aprender
alguma coisa. Muito menos quando o assunto é arte. A saída foi fazê-los
competir. Foi fazê-los brincar uns com os outros. Sim, adolescentes tem
vergonha, mas gostam de brincar. Tornei aquele momento divertido e muito mais
diferente do que eles podiam imaginar. Foi uma experiência gratificante e que
vou guardar com muito carinho na minha memória e no meu coração de mediador.
MEDIAÇÃO DE CADEIRA DE RODAS
Nas últimas semanas de Bienal eu estava disposto a
arriscar tudo: queria fazer o diferente, o inusitado e transformar isso em
arte, em educação. Mesmo se desse errado também
seria uma aprendizagem (aprendemos a usar os erros ao nosso favor num
laboratório de formação). Então, depois das duas mediações acima, eu precisava
encontrar outra. Algo mais diferente e desafiador.
Num dia sem movimento de público eu estava encostado na
grade do segundo andar pensando no assunto e então vi aquelas cadeiras de rodas
ao lado da porta de entrada da Usina: “Bem que eu poderia mediar usando as
cadeiras”. “Mas em que contexto?”. No dia seguinte, fui trabalhar e parecia que
eu tinha tomado Ritalina, estava bem
empolgado e com vontade de mediar. A supervisão me chamou repentinamente para
atender uma turma que acabara de chegar. Fui em direção a porta... e voltei um
pouquinho... e sentei na cadeira de rodas. O Rafa me olhou com um sorriso meio
sem graça e perguntou “o que era aquilo”, simplesmente com os olhos e mexendo
os ombros. Eu sorri, também sem graça, e não tinha o que responder. “Vou mediar
de cadeira, Rafa”. Ele perguntou qual era a ideia e eu disse que não tinha
formulado, ainda, mas que havia pensado em utilizar a frase “Se o clima for
favorável”, comparando a relação de clima com um mediador cadeirante e um
andante (não sei se esse termo existe, mas foi a forma que encontrei de
relacionar, e gostei). O Rafa, se apropriando de sua responsabilidade enquanto
supervisor fez a pergunta que qualquer um faria: “Você tem certeza?”. Mesmo sem
ter certeza eu disse que sim. E lá fomos nós para o lado de fora da Usina
recepcionar a turma. O acolhimento foi feito e logo me deparei com o medo de
subir a rampa. Pedi ajuda. A professora ajudou.
Iniciei
a mediação como sempre fiz. Propus um game
que eu já vinha aplicando com certa frequência: uns enigmas que as colegas de
espaço fizeram para uma atividade para o dia das crianças. São enigmas que dizem
respeito a alguma obra do espaço da Usina. Iniciamos a atividade no terraço
onde expliquei como seria e dei um tempo para que eles traduzissem as palavras
do enigma que estavam codificadas com o alfabeto da Bienal. Cabe dizer que eles
foram sozinhos pela escada, enquanto eu fui de elevador com a ajuda da Duda
(Eduarda Moura) e do Thiago (Alves). No elevador um senhor ficou me olhando,
até que eu levante da cadeira para me arrumar e ele disse: “Ahh bom... ontem te
vi caminhando e agora está de cadeira”. Rimos e expliquei que era uma
atividade.
A
mediação seguiu normalmente. Eles tinham três enigmas: um para a obra do David
Medalla; outro para a obra da Hope e outro para a obra do Koenraad. No caminho
um dos meninos me ofereceu ajuda com a cadeira e eu aceitei. O detalhe mais
encantador é que não havia dificuldade nenhuma, era no piso plano de uma obra
para a outra. Eu estava um pouco nervoso, ficava mexendo na cadeira, as pernas
começaram a doer de ficar numa única posição, então por algumas vezes as mexi.
Tentava fazer discretamente.
Os dois
enigmas do andar superior (Medalla e Hope) haviam sido descobertos. As
discussões foram bem interessantes. Era uma turma muito boa de mediar. Até que
chegamos na obra do Koenraad, a última obra no circuito que eu havia planejado
e seria o último enigma. Depois dessa obra e da resolução do enigma iríamos
para frente da frase “Se o clima for favorável” para, então, sei lá como,
revelar que eu não era cadeirante e conversar com a turma sobre o processo.
Falei muito, muito mesmo sobre a obra do Koenraad e nada deles me falarem do
tal enigma. Perguntei se eles tinham algo a declarar sobre a obra e... nada.
Percebi alguns cochichos e notei que eles pudessem estar desconfiados da minha
condição de cadeirante. Bom, enigma não descoberto, fomos para o encerramento.
No pequeno espaço de deslocamento entre a obra e o mural com a descrição a
professora foi do meu lado e perguntou: “Posso te fazer uma pergunta indiscreta?”.
Achei que a pergunta pudesse ser sobre a cadeira e disse: “Vamos encerrar a
atividade antes, depois a senhora pode fazer, sem problemas”.
Eu queria
encerrar a questão dos enigmas para que pudesse dar entrada num raciocínio
referente ao “clima”, e então os questionei sobre o enigma que não tinha sido
descoberto. Ficaram rindo e cochichando. Um menino tentou começar a falar e não
conseguiu terminar. Até que a professora se manifestou: “Bom, é o seguinte, não
quero que tu fiques chateado caso estejamos errados, mas os alunos estão
achando que você não é cadeirante e que esse enigma refere-se a tua cadeira de
rodas”. P-A-S-M-E-M. “Como assim?”, perguntei surpreso e com um sorriso
nervoso. A professora continuou sua explanação se apropriando do texto do tal
enigma que referia-se a obra do artista Koenraad: “Não deveria estar aqui
dentro” “um convite a se sentar”, “posso ser um obstáculo”, “você já passou por
mim hoje”. Dels... todas frases do enigma foram feitas para a obra... somente
pensando na obra... e eles conseguiram colocar todas frases suspeitando da
cadeira. E encaixou perfeitamente.
Surpreso
e com os planos todos mudados, tive que, mais uma vez, improvisar na fala e no
contexto. Disse, abertamente, que o enigma não tinha absolutamente nada a ver
com a cadeira de rodas, disse que ele referia-se aquela obra e justifiquei cada
palavra do enigma encaixando na obra do Koenraad. Mas, no fim, confirmei suas
suspeitas referentes à cadeira e levantei. Tremendo. Tremendo muito. Suando
muito. A reação deles? Não sei, não lembro. Acho que tinha medo de olhar.
Lembro-me de um menino dizendo “milagre, milagre”, lembro-me de uma menina
apertando o braço da outra e sorrindo.
Vídeo da revelação feito pela amiga e mediadora Juliana Scarrone. Obrigado Ju, adorei. http://migre.me/hRpYU
Começamos
uma conversa sobre a situação. O que foi isso? Qual a razão? Foi uma
brincadeira de mal gosto ou processo artístico? Deixei no ar para que eles
pudessem trocar informações e a resposta que me deram é que foi um processo
artístico bem sucedido. Falei da linha tênue que separa ‘alguma coisa’, da
arte. Disse que meu celular era apenas um celular de 300 reais, mas se eu
dissesse que dentro dele tem um fragmento da lua, ele deixaria de ser,
simplesmente um celular de 300 reais.
Resumindo
o fim da missa: não concluí nada. Também nem poderia concluir alguma coisa com
tanta informação que eu tinha divagado com eles. Nem se quer eu tinha
estabilidade emocional para concluir algo. Deixei em aberto e pedi que eles
pensassem nessa linha que separa algo, da arte. E então, sentei no chão com
eles e perguntei, como uma criança que faz um desenho e mostra para os pais,
“Como foi? Me contem”. O esperado foi dito: no início ficaram surpresos e não
sabiam como agir comigo. Não sabiam se ofereciam ajuda ou não. Procuraram se
manter mais próximos de mim e, sim, prestaram mais atenção por ser um
cadeirante. Desde o primeiro contato comigo uma das meninas alertou os colegas
que eu não era cadeirante e eles não acreditaram. Ela dizia: “eu sabia, eu
sabia...”, mas do meio da mediação para o fim, vários já desconfiavam da
situação. Encerrei com a mediação recebendo aplausos acalorados, deles e dos
colegas mediadores que estavam observando a loucura do Jonas.
Deu tudo
certo, O CLIMA FOI FAVORÁVEL, mas cabe registrar que poderia não ter sido: um
daqueles jovens poderia ter um parente cadeirante e saberia que nunca o veria
levantando como eu fiz; um cadeirante poderia estar passando naquele momento e
ver que eu estava sorrindo ao levantar (aliás, o Rafa me alertou que naquele
momento havia um cadeirante no espaço expositivo). Inúmeras possibilidades para
o erro/imprevisto entrar. Mas como viver sem arriscar? Como aprender sem
tentar? Sou cauteloso, mas até para a cautela temos que ter cautela, não?
Encerro
meu relato escrito rapidamente e sem muita revisão textual. Quero isso mesmo:
quero deixar clara a minha emoção ao reviver esses momentos. Quero deixar
simples e com tom de informalidade. Espero que compreendam.
Jonas
Ferrigolo Melo, mediador da 9ª Bienal do Mercosul | Porto Alegre
Novembro
de 2013.
Fotos da Bienal: http://migre.me/hRpvX
Vídeos da Bienal: https://www.youtube.com/user/jonasferrigolo/videos




ilusões e desilusões de uma bienal, lindo <3
ResponderExcluirAdorei teu relato Jonas!! Parabéns!!!
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